Uso do símbolo do Justiceiro abre crise na polícia de cidade nos EUA

Uso do símbolo do Justiceiro abre crise na polícia de cidade nos EUA

O Justiceiro foi um dos primeiros anti-heróis dos quadrinhos, criado por Gerry Conway e os ilustradores Ross Andru e John Romita Sr., o personagem surgiu inicialmente como um antagonista do Homem-Aranha, mas naqueles idos dos anos 70 a inocência que caracterizou o surgimento dos primeiros super-heróis foi substituída por uma “América” que sofria com a violência urbana, com os traumas da Guerra do Vietnã e com o escândalo Watergate, abraçando assim personagens cujas atitudes moralmente questionáveis podiam ser compreendidas dentro de um cenário de caos, o que levou Frank Castle a ganhar uma popularidade que seu criador não imaginara que pudesse ter.

Desde então tornou-se comum ver até mesmo pessoas cujas profissões representam a lei e a ordem ostentar a marca registrada e icônica do personagem, a caveira. Isto chegou ao ponto de gerar uma crise entre certos policiais e o chefe de polícia da cidade de Saint Louis, no estado do Missouri. (via CB)

Policiais tem postado nas redes sociais a imagem da caveira, símbolo do personagem, no que dizem ser um gesto de solidariedade entre agentes da lei. Ed Clark, presidente da Associação de Policias de St. Louis, postou no Facebook que “O Justiceiro tem sabidamente sido abraçado pela comunidade dos operadores da lei como um símbolo da guerra contra aqueles que odeiam a aplicação da lei.”

 

 

A postagem provocou uma reação do Chefe de Polícia de St. Louis, John Hayden, que redigiu um memo criticando de forma veemente o uso do símbolo do personagem da Marvel pelos operadores da lei. No texto, Hayden diz que o uso da caveira do Justiceiro não coincide com a missão de proteger vidas e propriedade e a conquista de uma sociedade pacífica.

“Como agentes de aplicação da lei, nossa responsabilidade fundamental é servir a comunidade”, diz o memo. “Salvar vidas e propriedade; proteger inocentes contra trapaças, o fraco contra a opressão e intimidação e a paz contra a violência e desordem. E respeitar os direitos constitucionais da liberdade, igualdade e justiça. Este é o juramento que fizemos.”

Quem concorda com o Chefe de Polícia é o próprio Frank Castle. Em Punisher #13, publicada neste mês de julho, e escrita por Matthew Rosenberg, o Justiceiro encontra alguns policias que se revelam integrantes de um fã-clube seu e tentam tirar selfies com ele. O que estes não imaginavam é que Castle estabelecesse uma diferença bem clara entre ele e aqueles que são agentes da lei.

“Eu vou dizer só uma vez”, começa Castle. “Nós não somos iguais. Vocês fizeram um juramento de manter a lei. Vocês ajudam pessoas. Eu desisti de tudo isso há muito tempo. Vocês não fazem o que eu faço. Vocês precisam de um modelo a seguir? Seu nome é Capitão América, e ele ficará feliz em contar com vocês… Se vocês tentarem fazer o que eu faço, na próxima vez, eu virei atrás de vocês;”

 

Em janeiro, Gerry Conway, criador do Justiceiro, deu uma entrevista criticando o uso da simbologia do personagem por operadores da lei. Em entrevista ao SyFy Wire, Conway criticou duramente este tipo de atitude.

“Para mim, é perturbador ver figuras de autoridade abraçando a iconografia do Justiceiro porque o Justiceiro representa a falha do sistema de justiça. Ele deveria indicar o colapso da moral da autoridade social e a realidade de alguns pessoas que não podem depender das instituições como polícia ou militares para agir de maneira justa e capaz.

O anti-herói vigilante é fundamentalmente uma crítica ao sistema de justiça, um exemplo da falha social, então quando policiais colocam a caveira do Justiceiro em seus carros ou integrantes das forças armadas usam distintivos com a caveira do Justiceiro eles estão basicamente se colocando como inimigos do sistema. Eles estão abraçando a mentalidade de um fora da lei. Quer que as atitudes do Justiceiro sejam justificáveis ou não, quer você admire seu código de ética, ele é um fora da lei. Ele é um criminoso. Policiais não deveriam abraçar um criminoso como seu símbolo.

De certo modo, isso é tão ofensivo quanto colocar uma bandeira confederada em um prédio governamental. Meu ponto de vista é, o Justiceiro é um anti-herói, alguém por quem podemos torcer ainda que lembrando que ele é um fora da lei e um criminoso. Se um policial, um representante do sistema de justiça, coloca o símbolo de um criminoso em seu carro, ele ou ela estão fazendo uma propaganda muito perturbadora de seu entendimento sobre a lei.”

 

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