[RESENHA] Capitã Marvel – filme apresenta uma heroína que não precisa provar nada a ninguém

[RESENHA] Capitã Marvel – filme apresenta uma heroína que não precisa provar nada a ninguém

Demorou, mas depois de 10 anos, com o MCU plenamente estabelecido como a maior franquia do cinema, finalmente o Marvel Studios lançou o seu primeiro filme solo de uma super-heroína. Não por coincidência aquela que leva o nome da Casa das Ideias. Com a estreia de Capitã Marvel este fim de semana pode-se dizer que fecha-se um ciclo e abre-se outro. Capitã Marvel representa a transição, o elo de ligação entre a primeira década do MCU e a nova fase pós-Vingadores: Ultimato. A história de Carol Danvers era a peça que faltava para compor o painel desse ousado desafio de criar um universo compartilhado de super-heróis no cinema. Agora temos todos as peças no tabuleiro e a intrépida heroína é a Rainha.

O roteiro assinado pelos diretores Anna Boden e Ryan Fleck e por Geneva Robertson-Dworet procura fugir do lugar comum das histórias de origens contadas no cinema, e consegue apresentar algumas novidades dentro dessa estrutura, mas sem arriscar. Quando o filme começa, encontramos Vers (Brie Larson) em Hala, planeta capital do Império Kree, tendo dificuldades para dormir por conta de pesadelos que aparentam ter ligações com seu passado. Logo depois de treinar com seu oficial em comando, Yon-Rogg (Jude Law) e visitar a Inteligência Suprema, um espécie de computador-orgânico que funciona como líder político, militar e religioso dos Kree, aparecendo para cada indivíduo sob uma forma diferente, e que para ela assume a forma de Annete Benning, Vers parte em uma missão de resgate que coloca a ela e os demais integrantes da Staforce em confronto com os metamorfos Skrulls. A ação não sai como planejada e suas consequências fazem com que Vers acabe caindo, juntamente com seus inimigos skrulls, no planeta C-53, a Terra.

 

 

Diferentemente de outros filmes de origem, o primeiro ato de Capitã Marvel não é dedicado a mostrar como Carol adquiriu seus poderes e sua dificuldade para entende-los ou aceita-los, mas por outro lado tem um problema de ritmo ao mostrar uma personagem ainda insegura em relação a quem ela realmente é. As sequências de ação são pontuais e não muito empolgantes, mas também é verdade que a sequência de luta entre Carol e um Skrull disfarçado de velhinha já nasceu icônica. Contudo, a grande virtude da primeira metade do filme está na construção do relacionamento entre Carol e um ainda inocente Nick Fury, que ainda não está acostumado com invasões alienígenas e rajadas de energia sendo disparadas por punhos. A química entre Brie Larson e Samuel L. Jackson é perfeita e isso contribui para dar a primeira hora do longa aquele ar dos bons e velhos “Buddy Cops Movies” dos anos 80 e 90.

 

 

Como a narrativa é construída tendo como base relações de amizade, alianças e traições, isto permite que as atuações sejam o ponto forte do filme, com destaque para Ben Mendelsohn, mais uma vez brilhando na pele de um vilão – neste caso o Skrull Talos, que se faz passar por um oficial da SHIELD – , Jude Law, sempre carismático, e Lashana Lynch, que atua como Maria Rambeau, melhor amiga e âncora emocional de Carol Danvers. Já Brie Larson mostra competência na forma como foi capaz de compor as várias camadas da personalidade de Vers/Carol, variando entre a arrogância, insegurança, bom humor, deboche, firmeza e alegria ao descobrir e brincar com seus poderes.

A direção, contudo, é burocrática. Ainda que também oriundos do cinema independente, Boden e Fleck, ao contrário de James Gunn (Guardiões da Galáxia Vol. 1 e Vol. 2), Taika Waititi (Thor: Ragnarok) e Ryan Coogler (Pantera Negra) falham ao não estabelecer uma identidade própria ao longa, algo que o distinga das demais produções do Marvel Studios, o que o torna um tanto genérico. Isto não é um demérito, mas tampouco é uma virtude. Ainda que o roteiro aborde o machismo estrutural, seja aquele que se revela no impedimento de mulheres se tornarem pilotas de combate no período em que a história se passa ou aquele do cotidiano presente em “piadinhas”, Capitã Marvel em momento nenhum faz do feminismo uma bandeira, evitando ser panfletário e optando até de maneira acertada em usar de sutileza, o que o leva a tomar um rumo completamente diferente do tom político e grave de Pantera Negra. Contudo, o roteiro apresenta uma bem-vinda novidade que é uma de suas grandes virtudes: a ausência de um interesse romântico para a protagonista. O que conecta Carol com seu passado na Terra não é um antigo namorado perdido e agora reencontrado, mas sua amizade com Maria Rambeau e o seu afeto pela filha desta, a carismática Mônica (Akira Akbar).

 

 

Embora os efeitos especiais na parte final talvez deixem um pouco a desejar, mas nada comparado ao que ocorreu em Pantera Negra, eles são muito bem empregados no rejuvenescimento de Nick Fury – não tanto no de Coulson (Clark Gregg) em uma determinada cena – e também nas metamorfoses dos Skrulls e nas cenas roubadas pelo fofo Goose, o gato que se torna parceiro de missão de Carol e Fury.

Se a primeira metade do filme é dedicada a busca de Carol por descobrir o seu passado e de que forma ela está ligada a um dispositivo energético disputado por Krees e Skrulls, após um plot twist que surpreende até mesmo aqueles muito familiarizados com as HQs da Marvel o longa mostra realmente a que veio, revelando não só a origem dos poderes de Capitã Marvel, mas também a dimensão destes. E aqui podemos ver mais uma distinção entre Capitã Marvel e outros filmes de origem de super-heróis. Nas demais produções do gênero, estamos acostumados a ver o herói ter como grande antagonista um nêmesis que possui poderes similares aos seus e assim o embate entre os dois é equilibrado, com o vilão na maior parte do tempo levando vantagem até ser derrotado no momento derradeiro. Já em Capitã Marvel não existe esse espelho. Carol Danvers é única e seus inimigos atuam de maneira diferente para tentar derrotá-la.

E de uma forma que pode ser tomada até mesmo como uma resposta antecipada à onda de haterismo que grupos organizados e indivíduos solitários moveram contra o filme em sites especializados e nas redes sociais, questionando não apenas as opiniões de Brie Larson mas também a forma como a heroína está sendo apresentada no cinema, supostamente poderosa demais, quando Carol finalmente torna-se consciente de seus poderes, de quem realmente ela é e livra-se de qualquer dúvida sobre si mesma a Capitã Marvel mostra que não precisa provar nada a ninguém.

 

 

Ao final, Capitã Marvel cumpre sua missão. O filme não apenas introduz a mais poderosa super-heroína já vista no MCU, como também serve para fechar pequenas lacunas, e neste ponto é realmente impressionante ver como parece simples para a Marvel colocar peças novas que se encaixam à perfeição às antigas, compondo um mosaico tão bem ajustado que dá a impressão que já fora pensado para ser desta forma desde o primeiro filme do Homem de Ferro em 2008, quando um agora nada inocente Nick Fury surgiu no escuro para Tony Stark dizendo que o bilionário não era o único super-herói do mundo.

P.S. 1: Capitã Marvel tem duas cenas pós-créditos. A primeira, na verdade no meio dos créditos, é certamente a mais importante e empolgante desde a revelação que era Thanos por trás da invasão chitauri a Nova York em Vingadores (2012)

P.S. 2: Capitã Marvel tem a mais bonita e emocionante apresentação inicial de um filme da Marvel.

Capitã Marvel, com direção de Anna Boden e Ryan Fleck, tem no elenco Brie Larson (Carol Danvers/Capitã Marvel), Judeu Law (Comandante da Starforce), Samuel L. Jackson (Nick Fury), Ben Mendelsohn (Talos), Clark Gregg (Phil Coulson), Lee Pace (Ronan), Djimon Hounson (Khorat) e Annette Bening.

 

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