[RESENHA] Aquaman é o melhor filme do universo compartilhado da DC, apesar de ignorá-lo

[RESENHA] Aquaman é o melhor filme do universo compartilhado da DC, apesar de ignorá-lo

Aquaman nunca foi dos super-heróis mais populares. A bem da verdade, Aquaman sempre esteve dentre os heróis mais ridicularizados, muito em conta da antiga animação Superamigos, produzida nos anos 70 e 80 pela Hanna-Barbera, e mais recentemente por causa das séries Robot Chicken, da Adult Swim do Cartoon Network,  e The Big Bang Theory, na qual o personagem Raj, vestido com uma fantasia de Aquaman montado em um cavalo-marinho roxo, imortalizou a frase “Aquaman Sucks“.

Porém, como diz a sentença bíblica, chegou a hora dos humilhados serem exaltados, e o personagem antes alvo de piadas em razão de seu visual e habilidade de falar com os peixes, estrela o melhor filme do chamado DCEU (DC Extended Universe) e um dos mais ambiciosos já produzidos dentro do gênero de super-heróis. Aquaman é um grande épico de aventura que, a exemplo de clássicos nos quais claramente se inspirou, Indiana Jones e Star Wars, cumpre sua missão principal: divertir.

 

 

Sem ter grandes pretensões, Aquaman segue a receita básica de um filme de origem, mostrando nos primeiros minutos o encontro do faroleiro Thomas Curry (Temuera Morrison) e Atlanna (Nicole Kidman), a rainha do mítico reino submarino de Atlântida, o pequeno Arthur Curry descobrindo parte de seus poderes e, anos depois, sua ação como um herói, libertando a tripulação de um submarino russo que fora invadido por piratas e criando aquele que será seu arqui-inimigo juramentado, o Arraia Negra (Yahya Abdul-Mateen II).

 

 

O primeiro ato apresenta de maneira eficiente a história e a personalidade do protagonista, o herói relutante que carrega cicatrizes emocionais do passado e que deseja manter-se distante de suas raízes atlantes, portanto não é preciso ter assistido antes Liga da Justiça (2017)  para saber quem Arthur Curry (Jason Momoa) é. Em nenhum momento o filme remete a qualquer ligação com os outros longas do universo compartilhado da DC, tendo uma história autocontida, estando muito mais próximo de filmes como o Superman (1978) de Christopher Reeve, dirigido por Richard Donner, ou os filmes solo do Batman.

É claro o esforço de James Wan para se afastar das amarras do que foi estabelecido por Zack Snyder, não apenas em termos de estética e estrutura, mas também de correções de erros. Em Liga da Justiça, por exemplo, Mera (Amber Heard) cria um bolsão de ar para poder ter um diálogo com Arthur embaixo d’água. Já em Aquaman este recurso foi completamente ignorado e os personagens falam naturalmente no ambiente aquático.

 

 

Mas o que mais distancia Aquaman das outras produções do DCEU é que este não tem em momento nenhum qualquer vergonha de se reconhecer como um filme de super-heróis e, mais ainda, como um grande filme de aventura e ação. Mesmo Mulher-Maravilha (2017) e Liga da Justiça estão diretamente ligados ao trabalho de Zack Snyder em Batman v Superman: A Origem da Justiça (2016). Já Aquaman é algo inteiramente novo e refrescante, uma bem-vinda lufada de leveza e cor no que antes era tão sombrio e pesado. Ainda que boa parte de suas cenas se passem no escuro fundo do oceano, Aquaman é um filme solar, luminoso e esta estética fica evidente até mesmo no interior dos ambientes em Atlântida, como a sala do trono ou centro de comando.

Apesar de ter construído sua carreira no cinema de terror, com filmes como Invocação do Mal (2013) e Sobrenatural (2010), James Wan dirigiu o frenético Velozes e Furiosos 7 (2015) e em Aquaman ele mostra toda sua competência em criar empolgantes cenas de ação, como a perseguição pelos telhados da Sicília, fazendo uso de curtos plano sequência, e os embates entre Aquaman e seu irmão Orm (Patrick Wilson).  Sua veia de diretor de filmes de terror vem um pouco à tona na sequência do ataque das horripilantes criaturas do Fosso, mas que ao fim acaba produzindo um dos momentos cinematograficamente mais belos e memoráveis do filme.

 

 

Mas cenas de ação bem coreografadas e fotografia não valeriam muito se o herói não convencesse, e Jason Momoa, que é reconhecidamente um ator limitado, se entrega ao personagem da melhor forma possível: divertindo-se. É visível o quanto ele está curtindo estar ali, sua dedicação e, principalmente, sua leveza ao incorporar o personagem de forma natural, e isto torna seu Aquaman um herói carismático e divertido, mas muito mais por causa da sua interpretação do que das péssimas piadas do roteiro.

Assim como acontece com Killmonger (Michael B. Jordan) em Pantera Negra, o vilão principal de Aquaman, Rei Orm, interpretado por Patrick Wilson, utiliza um problema atual como justificativa para suas ações. Ambos anseiam promover uma guerra que consideram justa contra o mundo exterior. Mas enquanto Killmonger deseja reparar séculos de colonialismo e perseguição dos africanos e seus descendentes fora da África, o atlante culpa o mundo da superfície pela poluição dos oceanos. A diferença é que no caso de Orm isto soa muito mais como uma justificativa retórica e não uma motivação real. A questão da poluição dos mares retorna em alguns momentos pontuais, mas não permeia o filme como uma mensagem a ser transmitida.

 

 

Pode-se dizer que Aquaman é o filme mais Marvel da DC, porém em termos de escala ele é mais ambicioso que qualquer filme do Marvel Studios até hoje. A representação visual do mundo submarino de Atlântida é deslumbrante, viva, cheia de cores e imponente, demonstrando um apuro e preocupação muito maior que a apresentada em Pantera Negra, por exemplo, no qual vemos apenas uma rua ou dois ambientes de Wakanda. E no terceiro ato James Wan nos brinda com uma sequência de batalha digna da trilogia O Senhor dos Anéis, com veículos de combate e guerreiros montados em criaturas marinhas das mais variadas formas e tamanhos até o momento alto da ascensão do Rei, com James Wan e Jason Momoa redimindo Aquaman e seu cavalo-marinho gigante por anos de bullying. Não, Raj, Aquaman “doesn’t suck.

Aquaman, com direção de James Wan (Velozes e Furiosos 7), tem no elenco, Jason Momoa (Aquaman), Amber Heard (Mera), Patrick Wilson (Mestre dos Oceanos), Willem Dafoe (Vulk0), Yahya Abdul-Mateen II (Arraia Negra), Nicole Kidman (Atlanna), Temuera Morrison (Arthur Curry).

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