Rogue One: Uma História Star Wars – Critica

Rogue One: Uma História Star Wars – Critica

Rogue One é O Resgate do Soldado Ryan de Star Wars

Rogue One é o lado mais humano de Star Wars. Quando o episódio IV, Uma Nova Esperança, estreou no agora distante verão de 1977 o público, pela primeira vez, foi apresentado a uma então inusitada forma de introdução de um filme. Através de um texto, que subia em meio à escuridão do espaço e o brilho de estrelas, nos informavam que iríamos ver as consequências de um arriscado roubo de informações sigilosas e técnicas de uma arma mortal por um grupo de rebeldes que lutam contra a tirania do maléfico império galáctico. É um texto de algumas poucas linhas e palavras, que resume as ações que nos levaram até aquele particular momento, quando a nave diplomática da Princesa Leia é abordada por Darth Vader. Nunca havíamos pensado muito a respeito daquilo: quem foram os rebeldes que roubaram os planos da Estrela da Morte? Como eles conseguiram impor a primeira derrota às tropas do Império? Como os planos chegaram às mãos da princesa e senadora Leia Organa?

Até hoje Star Wars sempre foi basicamente uma narrativa sobre as desventuras, vitórias, derrotas, da família Skywalker. O enredo da saga estelar de George Lucas é uma modernização com tons fantasiosos de sci-fi das tragédias gregas e dos dramas shakespearianos, ou elizabetanos, uma vez que muito da inspiração de seu grande protagonista, Anakin Skywalker/Darth Vader, vem do Dr. Fausto (de Marlowe) o homem que vendeu à alma ao diabo. A Guerra nas Estrelas de seu título basicamente sempre funcionou mais como pano de fundo para a jornada do herói, primeiro Luke Skywalker na trilogia clássica e, depois, a de seu pai, Anakin, cuja conclusão se daria apenas com o cumprimento da profecia do escolhido que traria o equilíbrio à Força. (Ele realmente era o escolhido?) Mas naquela galáxia incrível, repleta de personagens, culturas e histórias fabulosas, há muito mais material para ser trabalhado, e foi necessário que a Disney comprasse a Lucasfilmes para que todo esse imenso potencial começasse a ser explorado.

Rogue One: uma História Star Wars não é mais um capítulo na trágica existência do clã Skywalker, o que fica claro já em seu início por não ter justamente o clássico letreiro informativo e a música tema ao fundo. O filme dirigido Gareth Edwards (Godzilla) com roteiro de Chris Weltz (que já dirigiu A Bussola de Ouro e Crepúsculo: Lua Nova) e Tony Gilroy (roteirista da trilogia Bourne e Advogado do Diabo) não gira em torno da trágica família de Tatooine e nem na luta milenar entre Cavaleiros Jedi e Lords Sith, ele tem seu foco nas pessoas comuns, em um grupo de improváveis heróis que, embora até então anônimos, foram os grandes responsáveis, em última instância, por todos os eventos subsequentes da saga.

Mais do que em qualquer outro filme das duas trilogias somos apresentados a um cenário realmente de guerra, testemunhando como o conflito entre as tropas imperais e os rebeldes insurgentes afeta à vida da população nos planetas e luas ocupados pelo Império. Contudo, a base da história continua sendo o drama de uma família, em Rogue One o clã Erso, representado pelo até então desconhecido arquiteto da Estrela da Morte, Galen Erso (Mads Mikkelsen) e sua filha Jyn (Felicity Jones). O antigo dito bíblico de que os filhos pagam pelos pecados dos pais parece ser a temática constante em Star Wars. Após seu pai ser levado coercitivamente por Orson Krennic (Bem Mendelsohn) para servr ao Império, Jyn é criada para ser uma sobrevivente, tendo agora como figura paterna o extremista rebelde Saw Guerrera (Foest Whitaker), mas, adulta, reluta em engajar-se ativamente na luta político-militar que a cerca, lembrando em certos momentos o individualista e cínico Han Solo no episódio IV até, como ele, abraçar a causa da Aliança Rebelde.

O grupo que a cerca não é composto por heróis, mas por desgarrados; Cassian Andor (Diego Luna), um agente rebelde que não se furtar de fazer o que for preciso pela causa a qual dedicou toda a sua vida; K-2SO (voz de Alan Tudyk), um droide imperial reprogramado para servir a Aliança que lembra Marvin, o paranoid androide, com sua sinceridade e pessimismo; Chirrut Îmwe (Donnie Yen) e Baze Malbus (Jiang Wen) dois velhos amigos, guerreiros e servos da Força, que aqui tem ampliada de modo belisímo o seu caráter místico, ganhando uma prece ou mantra que é repetida por Chirrut em momentos em que a fé se faz necessária; Bodhi Rook (Riz Ahmed), um piloto imperial que se une à causa rebelde.  São eles que, levados por motivos diferentes, impõe a primeira grande derrota ao Império.

Do lado dos vilões, Orson Krennic, diretor responsável pela construção da Estrela da Morte, encarna a figura do burocrata presunçoso e orgulhoso, sendo portanto não um guerreiro, um grande estrategista militar, mas um homem vaidoso que anseia por reconhecimento de seus superiores, por cair nas graças do Imperador. A frieza, covardia e arrogância de Krennic é muito bem representada por Ben Mendelsohn, que contracena com um Peter Cushing “revivido” digitalmente, mas cuja aparência artificial não consegue em momento nenhum ser eficientemente disfarçada, causando um incômodo ao revermos o sádico Governador Tarkin em ação. Mas o que todos sempre queriam desde que Rogue One foi anunciado era rever o mais mítico dos vilões cinematográficos, Darth Vader, embora se suspeitasse que sua presença serviria mais como um fan service. Ledo engano. Embora não ocupe mais do que cinco minutos de tela, Darth Vader tem em Rogue One aquela que seja, talvez, a sua cena mais emblemática e representativa do poder de sua figura, no que pode ser considerado o momento mais assustador e terrível de toda a saga.

À realidade da guerra em Rogue One é muito mais crua, suja e violenta do que nos outros capítulos da saga, e seu deselance dramático carregado de emoção, misturando alegria, júbilo, tristeza, terror e esperança. Então, quando aquelas poucas palavras resumidas no letreiro inicial do episódio IV subirem, elas nunca mais serão vistas da mesma forma, porque a partir de Rogue One elas ganharam rostos, vozes, vida, e um significado muito maior do que tinham até então. Aquele grupo de rebeldes que roubou os planos da Estrela da Morte não é mais composto por anônimos, mas por heróis a quem agora respeitamos e prestamos tributo.

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João Melo, https://twitter.com/JoaoMariaDeMel1

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