Invasão Zumbi – crítica do filme de terror do ano

Invasão Zumbi – crítica do filme de terror do ano

Invasão Zumbi é o terror dentro de um trem

Invasão Zumbi (2016), que entrou em cartaz no Brasil na última quinta-feira (29), causa medo. Todas as criaturas mitológicas que povoam o nosso inconsciente surgiram a partir do medo primário, o medo do escuro: sejam vampiros, lobisomens, fantasmas. Estes têm suas origens em períodos remotos de nossa existência, mas hoje existe um monstro cuja gênese ou, pelo menos, seu desenvolvimento como conhecemos é filho direto do século XX e XXI: o zumbi. O morto-vivo. Não vou negar, dentre todos eles, este é o que realmente me causa terror. E constantemente, sobretudo nos últimos anos, o cinema e a TV tem se utilizado do zumbi como um produto com garantia de sucesso. Vivemos uma zumbimanía. E dentre todos os produtos desta nova safra, Invasão Zumbi é um dos mais competentes em fazer aquilo que é sua motivação e função básica: provocar medo.

O titulo original (Trem para Busan) não causa impacto, embora  toda a trama da história gire em torno disso, por esse motivo a distribuidora brasileira optou pelo chamativo Invasão Zumbi. Afinal, quem iria assistir um filme sul-coreano chamado “Trem para Busan”? Mas todos os fãs de The Walking Dead certamente ficariam ansiosos para assistir a Invasão Zumbi. O filme, dirigido por Yeon Sang-ho, tem uma premissa básica: colocar mortos-vivos dentro de um trem e um grupo de pessoas lutando para sobreviver. Os protagonistas são Seok-Woo (Gong Yoo), um administrador de fundos de negócio, totalmente devotado ao trabalho, e sua filha, a pequena Soo-an (Kim-suan) que vive com o pai, divorcidado de sua mãe, e como presente de aniversário pede para visitá-la na cidade do título original, Busan. A eles, como passageiros do trem, juntam-se um casal, cuja mulher está grávida, um grupo de atletas de uma escola e a líder de torcida, duas irmãs idosas, um mendigo – clandestino – , e um executivo. Cada qual representa um estereótipo e no decorrer da história seus desenvolvimentos seguem o destino que, desde o momento inicial já estava previamente definido e antecipado até mesmo pelo espectador menos experiente.

Invasão Zumbi, portanto, é feito a partir de clichês vistos e revistos inúmeras vezes em dezenas de filmes de terror ou de catástrofes, porém nem mesmo isto consegue diminuir sua força, calcada principalmente na ação e tensão. Não importa que já saibamos de antemão o que vá acontecer, porque quando acontece isto é carregado por uma carga emocional e visual tão forte que nos leva a imergir naquela sequência esquecendo ou não dando a mínima para os clichês.

Tampouco Invasão Zumbi é um filme inovador, embora a solução encontrada para a reação de zumbis ao escuro seja original. Seus mortos-vivos se assemelham aos de Guerra Mundial Z (2013) – inclusive a sequência do ataque inicial dentro do trem lembra muito a cena do avião no filme estrelado por Brad Pitt, bem como a cena na estação tenha alguma semelhança com o ataque a Muralha de Jerusalém – e Madrugada dos Mortos (2004) dirigido pelo “visionário” Zack Snyder. E como toda produção que trata do assunto, desde que George Romero, em 1968, criou o gênero com o clássico absoluto A Noite dos Mortos-Vivos, Invasão Zumbi se utiliza dos mortos canibais para traçar um retrato e uma crítica da sociedade, ainda que de forma bem simplista e reducionista.

Note que, diferentemente de vampiros, lobisomens e outros criaturas sobrenaturais que apavoram o imaginário humano, os zumbis tem sua força no coletivo. Um apenas não representa tanto perigo, ou dois, sobretudo quando são lentos como os clássicos de George Romero e de Robert Kirkman (criador de The Walking Dead), mas quando em grupo, em imensos grupos, agindo de forma caótica, são como leões atacando suas presas, fazendo suas vítimas iniciais nos mais fracos e desgarrados, com a diferença que as presas dos felinos não se tornam elas próprias leões. Portanto, os zumbis estão, em última instância, fadados a vencer, pois a vantagem numérica está com eles, que se “reproduzem” de forma exponencial. E é nisto que reside todo o medo causado pelos zumbis. A vítima torna-se a nova ameaça. E Invasão Zumbi se utiliza desse recurso de forma dramática.

Uma vez frente ao apocalipse zumbi todos tem apenas um objetivo: sobreviver. Mas como sobreviver, a que custo, que decisões tomar, é o que faz com que nestas situações os próprios vivos tornem-se os inimigos e qualquer um que já tenha assistido The Walking Dead sabe o que isto representa: a divisão dos personagens entre os mocinhos – aqueles altruístas e capazes de realizar sacrifícios – e seus antagonistas, os vilões, aqueles personagens que colocam sua sobrevivência acima de qualquer coisa, de qualquer código moral ou da forma mais elementar de empatia. E Invasão Zumbi estabelece essa divisão de forma clara, sem nuances, sem qualquer traço de relativização. Seus personagens são pouco mais do que apenas estereótipos, mas isto trabalha para reforçar a reação que se espera do espectador quando cada um deles enfrenta o desfecho que lhe é reservado.

É curioso notar também que em Invasão Zumbi, assim como já ocorrera com outros excelentes filmes do gênero, Extermínio (2003), dirigido por Danny Boyle, e Todo Mundo Quase Morto (2004), dirigido por Edgar Wright, ambos britânicos, não há civis portando armas de fogo atirando de forma precisa na cabeça dos desmortos. Mas quando – porque é apenas uma questão de tempo – Hollywood fizer a sua versão do filme, teremos muitos tiros dentro do Trem Para San Francisco. O modo como cada povo, cada cultura, lida com o apocalipse zumbi é um fator que pode vir a ser muito bem explorado por novas produções fora dos EUA que tratem do tema, inclusive o Brasil.

Tendo seu momento final dentro de um túnel, o longa sul-coreano retorna à raiz de todos os medos, o medo do escuro, a antecipação do que pode estar esperando em meio às trevas, a dúvida sobre o que pode sair dali e o que virá a seguir. Sim, Invasão Zumbi pode ser repleto de clichês, mas isto pouco importa porque seu impacto visual e emocional fazem valer a pena cada minuto.

Assista o trailer aqui.

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