[CRITICA] Pantera Negra não é só o mais político, é o filme mais humano da Marvel

[CRITICA] Pantera Negra não é só o mais político, é o filme mais humano da Marvel

Levou mais de 50 anos para que o primeiro super-herói negro e africano dos quadrinhos chegasse à tela grande do cinema, mas sua estreia se fez não apenas no momento mais pertinente possível, como seu discurso reflete de modo eficaz e nada sutil o porquê de sua importância atual. É impossível assistir e não comentar Pantera Negra desassociando-o do componente político que permeia e conduz toda sua narrativa.

Quando o longa começa, passou-se apenas uma semana desde o atentado na Áustria que vitimou o rei T’Chaka (John Kani) e, portanto, apenas três ou dois dias desde que vimos  T’Challa (Chadwick Boseman) ao final de Capitão América: Guerra Civil (2016). Às vésperas de sua coroação, o príncipe ainda é um filho de luto pela perda de seu pai, diante do desafio de comandar a nação mais tecnologicamente avançada do planeta, que é constituída pela união de cinco tribos. O Pantera Negra que reencontramos aqui já apresenta uma considerável diferença daquele que conhecemos em Civil War, quando agia movido irracionalmente pela raiva e desejo de vingança.

 

 

Mesmo sentimento que consome e alimenta o seu nêmesis, Erik Killmonger, cuja motivação é compreendida desde o princípio. Ao contrário da grande maioria dos vilões de filmes de super-heróis, cujos objetivos são mesquinhos, buscando lucros pessoais ou sonhos megalomaníacos de grandeza e poder pessoal, o personagem brilhantemente vivido por Michael B. Jordan é uma figura cujo drama e tragédia pessoal moldou um revolucionário que, de forma torta e errada, procura alcançar um fim que pode ser entendido como justiça e reparação histórica.

 

 

Com um roteiro de estrutura simples, escrito por Joe Robert Cole e pelo diretor, Ryan Coogler, Pantera Negra apresenta algumas empolgantes cenas de ações, mas seu grande diferencial é a relação entre os personagens, os diálogos, estabelecendo-se como o filme mais humano da Marvel, abordando questões importantes de nossos dias atuais, como a crise de refugiados, segregacionismo, desigualdades sociais a temas antigos como o colonialismo, colocando-os como consequência e causa. O cerne de todo o drama é o que pode ser caracterizado como uma verdadeira tragédia shakesperiana, com o passado assombrando o presente, filhos respondendo pelos pecados dos pais, em um ajuste de contas que coloca duas visões de mundo que, por mais que sejam distintas, também possuem pontos em comum.

Outro ponto forte de Pantera Negra é, claro, seu elenco, um dos mais espetaculares já reunidos para um filme do gênero, contando com veteranos já consagrados como Forest Whitaker, que vive Zuri, o conselheiro do rei, e Angela Basset, a Rainha Ramonda, e também com estrelas em ascensão, como a vencedora do Oscar Lupita Nyong’O (a espiã Nakia), a carismática Danai Gurira (a general Okoye), o indicado ao Oscar deste ano, Daniel Kaluuya (o guerreiro W’kabi) e o vencedor do Globo de Ouro e do Emmy, Sterling K. Brown, em um papel pequeno, porém de grande importância e dramaticidade. “Os caras brancos do Tolkien”, Andy Serkis e Martin Freeman tem um destaque pequeno e limitado. O Ulisses Klaue de Serkis tem até mesmo uma relevância maior do que o personagem de Freeman, o agente Everet Ross, que se não estivesse presente no filme não faria a menor diferença, o que é uma pena, dado o talento do Dr. Watson de Sherlock.

 

 

Apesar do filme ser dominado pelas duas figuras magnéticas de T’Challa e Killmonger, os personagens secundários, a exceção de Everett Ross, não são tratados como meras escadas e relegados a ações ou questões menores, possuindo também arcos narrativos que compõem o grande panorama da história que está sendo contada, especialmente Okoye (Danai Gurira) e Shuri (Letitia Wright). As duas roubam as cenas sempre que aparecem, seja pela presença forte e imponente da líder das Dore Milaje, que vive um conflito pessoal em um momento chave, seja pela leveza e bom humor da princesa, cujo gênio tecnológico é comparável ao de Tony Stark.

 

 

A direção de Ryan Coogler é firme e eficiente, mas se destaca e ganha mais intensidade nas cenas dramáticas do que nas cenas de ação, sobretudo naquelas produzidas por meio de CGI, cujos efeitos são claros, fazendo com que o peso do embate final entre o Pantera Negra e Killomonger perca um pouco da força e do impacto que gostaríamos de ver. Também fica a desejar o fato de vermos pouco da maravilha tecnológica que é Wakanda. Os cenários ficam limitados a sala do trono, ao laboratório de Shuri e uma rua da capital, além de alguns campos abertos, as cataratas onde ocorre o ritual de desafio e a montanha lar dos Jabari. A capital da nação mais avançada tecnologicamente do mundo não é apresentada com a dimensão que merecia. Porém, o requinte visual do filme é de uma beleza ímpar, reproduzindo nos figurinos e composição dos personagens as distinções entre as tribos que compõe o reino de Wakanda, que apesar de toda sua tecnologia, não abandona suas tradições milenares.

 

 

Chadwick Boseman constrói seu T’Challa de modo preciso, apresentando um personagem humano, tridimensional, que não é um herói perfeito, mas um homem em claro processo de amadurecimento, lidando com sentimentos como insegurança e desapontamento. Podemos ver uma evolução nítida em sua persona desde Capitão América: Guerra Civil até o inicio e, por fim, a conclusão de Pantera Negra. O jovem príncipe arrogante que conhecemos anteriormente é transformado a partir do encontro com o seu espelho, Killmonger, cujas palavras causam um efeito muito maior que suas ações violentas.

 

 

E a grande força de Pantera Negra é esta, o seu discurso. Ao dar a direção para Ryan Coogler, a Marvel sabia exatamente o que queria, um filme político, que refletisse as tensões de nossos tempo, que dialogasse com as plateias de todo o mundo, que fosse entretenimento, mas que mandasse uma mensagem direta e sem subterfúgios, que incomodasse alguns, especialmente certos donos do poder, e que permitisse a milhões de pessoas, seja na África, nos EUA ou no Brasil, se sentirem finalmente representadas como um super-herói. A revolução pregada por Killmonger gera uma evolução, e esta evolução se contrapõe a noção de “nós contra eles”. Como é dito em determinado momento de Pantera Negra, “Em momentos de crise, homens sábios constroem pontes. Os homens tolos constroem barreiras.” A referência foi entendida.

Pantera Negra, com direção de Ryan Coogler (Creed), Pantera Negra tem no elenco Chadwick Boseman (T’Challa/Pantera Negra), Lupita Nyongo (Nakia), Danai Gurira (Okoye), Michael B. Jordan (Erik Killmonger), Andy Serkis (Ulysses Klaw),Forest Whitaker (Zuri), Sterling K. Brown (N’Jobu) e Angela Bassett (Ramonda).

 

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